“Na TV nada se cria, tudo se cópia”. A célebre frase foi consolidada pelo apresentador Chacrinha nos anos 80, e pode ser perfeitamente aplicada aos dias atuais na televisão brasileira. Para buscar a liderança de audiência no país e bater a Rede Globo, a Record apostou em copiar o chamado “Padrão Globo de Qualidade”.

Sua estratégia, no entanto, chegou ao extremo de reproduzir o modelo sem qualquer receio do rótulo de “cópia da Globo”.

A situação pode ser comprovada, por exemplo, aos domingos. A programação global pelas manhãs iniciava com o tradicional Esporte Espetacular e se encerrava com o programa jornalístico Fantástico. A Record, levando ao pé da letra a máxima de Chacrinha, apresentou aos telespectadores, pela manhã, o Esporte Fantástico e, à noite, o jornalístico Domingo Espetacular.

Como assim?

Além de fazer uma inversão dos nomes de dois dos principais e mais tradicionais programas da Globo aos domingos, a Record levou alguns nomes do jornalismo global para sua emissora.

Mylena Ceribelli se consolidou como repórter e apresentadora do Esporte Espetacular durante bons anos. Trocou de emissora, mas não de horário de trabalho, pois foi escalada pela comandar o quase homônimo da Record: Esporte Fantástico.

A troca de empresa de comunicação alterou seu salário, mas com certeza, não causou estranhamento no novo trabalho. O programa de Mylena na Record é a cópia do pretérito-mais-que-perfeito da Globo.

O caso se repete no Domingo Espetacular. Chegou como concorrente do show da vida da Globo, colocou no ar quadros semelhantes ao da rival – exceto pela parte de teledramaturgia – , e agregou telespectadores com reportagens mais completas e melhor produzidas que as do Fantástico, que por coincidência, já vinha caindo em audiência nos últimos anos.

O quadro do Domingo Espetacular, “Gêmeos da Pesada”, acompanha a rotina de dois irmãos com obesidade mórbida em busca de tratamento e perda peso. A luta dos rapazes comoveu o público, angariou audiência e irritou a Globo, pois é mais uma cópia que a Record fez das suas produções. O Fantástico, algum tempo, já colocava no ar quadros que seguiam o cotidiano de famílias e pessoas, mas não obteve o mesmo sucesso.

A cópia descarada, pura e simples continuará. Quem perde como sempre, é o telespectador, pois terá as opções totalmente idênticas e nos mesmos horários.

Observatório da Imprensa de 25 de agosto deste ano, pautado pela discussão vergonhosa entre Record e Globo, levantou a discussão do quão válido, ou sério, é o trabalho da imprensa que usa a religião como alicerce, que busca credibilidade por meio de comoção da fé. Com mediação do jornalista Alberto Dines, o programa chama de guerra santa o momento atual da imprensa brasileira e lembra que vivemos numa sociedade laica, ou seja, dissociada de religião.

Carlos Eduardo Lins da Silva – Ombudsman/ Folha de S. Paulo

Elvira Lobato repórter da Folha de S. Paulo

Roberto Livianu – Promotor de Justiça Criminal/SP

Roseli Fischmann – Cientista política/USP