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Os canais de televisão enfrentam uma concorrência que pode ser bastante desleal: a internet. Através de downloads e transmissão via streaming, os internautas podem assistir a produções de outros países, e também programas produzidos pelas emissoras nacionais direto no computador. O gênero que mobiliza milhares de fãs, que correm atrás dos melhores links e para produzir legendas em tempo recorde, são as séries de televisão. Exibidas no Brasil em canais de tv a cabo, e também na tv aberta (a série Supernatural é recorde de audiência no horário nobre do SBT), os chamados enlatados americanos são o símbolo de uma revolução que acontece de maneira silenciosa e pode mudar a maneira de se fazer televisão no mundo.

Atualmente, podemos assistir aos episódios de Lost exibidos nos Estados Unidos ao vivo através de streaming. Notícias do mundo dos seriados são publicadas por aqui em sites e blogs quase simultaneamente às suas divulgações na terra do Tio Sam. Legendas são produzidas por internautas em tempo recorde. Pessoas de diferentes idades e classes sociais assistem e comentam séries produzidas para um público que vive uma realidade muito distante da brasileira. O lançamento da tv a cabo em 1991 foi responsável por parte do sucesso destes shows, mas a grande revolução veio mesmo com a popularização da banda larga nos últimos anos. A jornalista Fernanda Furquim, que lançou um livro sobre sitcoms e atualmente ministra cursos sobre a história das séries, nos anos 90 publicou a revista TV Séries e acompanhou com especial interesse a mudança no perfil dos fãs dos seriados americanos. “A evolução tecnológica estimulou muita gente a gostar de séries de TV, que antes dependiam unicamente do roteiro e do bom desenvolvimento de situações e personagens”, conta. Fernanda afirma não ter se surpreendido com o sucesso do gênero. “Sempre soube que as séries se tornariam mania algum dia. Só não sabia quando ou como. A publicação da TV Séries surgiu com base nessa crença de que nós existíamos. Eu só não sabia como poderíamos agregar as pessoas para um movimento neste sentido. Estava faltando a internet e estava faltando a qualidade técnica do produto para gerar um movimento”.

Além de encontrar notícias com facilidade e debater em redes sociais, a verdade é que muitos dos atuais espectadores de séries não consumiriam os episódios com a mesma voracidade se tivessem que esperar pela exibição nos canais a cabo brasileiros. O estudante gaúcho Ronan Gorski, 18 anos, utiliza a internet desde 2006 para baixar episódios de Smallville, Kyle XY, Lost e outros 27 seriados. Ele conta que a facilidade dos downloads o fez acompanhar esses programas, mesmo sem TV por assinatura. “Fazendo downloads, você pode assistir mais rapidamente, e acompanhar desde o início séries que, lá fora, estão na terceira ou quarta temporada”, afirma. Para auxiliar usuários como Ronan, que não fala inglês, internautas como a bióloga carioca Tata, 33 anos, abdicam de algumas horas de sono para produzir legendas para os arquivos de vídeo que são baixados de sites ou através de torrents. Fã de Dexter, Tata e um grupo de amigos criaram o grupo Psicopatas em outubro de 2006 para traduzir os diálogos da série. “A qualidade das legendas disponíveis é muito alta. Pessoas com excelente nível de português e inglês tomaram este hobby como coisa séria”, conta. “Eu conheci pessoas divertidas e aperfeiçoei muito o meu inglês”, enumera as vantagens do trabalho, pelo qual nenhum dos legenders recebe remuneração. Obviamente, entrar madrugada adentro legendando é cansativo, e traz um efeito inimaginável para quem baixa: “As pessoas envolvidas na legenda acabam perdendo o tesão pela série”, lamenta Tata. Ela também é uma das administradoras do portal legendas.tv, o mais popular entre os amantes de séries brasileiros, que chega a ter dois mil acessos simultâneos em busca das quase 69 mil legendas disponíveis em seu banco de dados. Recentemente, o portal foi ameaçado por uma entidade que defende as empresas produtoras dos seriados, mas se mantém no ar graças a diversos truques de seus administradores.

As mídias mais “tradicionais” também se rendem ao fascínio que as séries americanas exercem sobre os telespectadores brasileiros. O jornal Zero Hora publica a coluna Fora de Série, assinada pela jornalista Camila Saccomori, semanalmente desde maio do ano passado. O espaço de opinião e informação sobre seriados foi ampliado com um blog, que estreou junto com a edição online do jornal, em setembro de 2007. “O caderno de TV sempre tentou publicar notícias de seriados, ao menos as estréias, mas sem um espaço fixo era difícil – a primeira coisa que caía era esse material, justamente porque TV a cabo tem uma fatia de público mais restrita”, conta Camila. Com o aumento do interesse do público pelas séries, que a jornalista credita mais à qualidade do produto do que à popularização dos downloads, o assunto ganhou espaço nobre no jornal. Na edição impressa, porém, são privilegiadas as informações sobre os programas exibidos na televisão, muitas vezes assistidos pela colunista meses antes. “Os leitores de ZH são mais tradicionais. Já o blog permite que se acompanhe taco a taco com a exibição americana. Não escapo, porém, de dar alguma coisa de programação brasileira para tentar captar um público diferente, afinal nem todo mundo quer abrir mão do ritual de sentar em frente à TV, aguardar o horário certo de sua série, todas as semanas, de preferência com a família em volta”, pondera. Camila, no entanto, admite ser uma “hard user” em relação aos downloads. “Desde junho de 2004 a internet é exclusivamente o meio pelo qual eu vejo qualquer coisa de cinema e seriados. Há pessoas que acham isso um horror, por causa do isolamento, mas é o maior conforto que pode existir para mim”.

Algumas emissoras tentam se adaptar à nova realidade. Nos sites dos canais americanos, é comum a publicação de episódios na íntegra para os espectadores (geralmente disponíveis apenas aos IP’s do país) para visualização online, sem necessidade de download. Aqui no Brasil, no entanto, são poucas as iniciativas neste sentido. O site da Warner disponibilizou o episódio piloto de “Studio 60 on the Sunset Strip” semanas antes da estréia da série no canal e mantém também episódios do fenômeno “Gossip Girl”. Entretanto, o internauta pode desanimar com a necessidade de instalação de um plugin. Na página do AXN, é possível assistir aos episódios da animação Afterworld, porém com áudio em espanhol e sem legendas. Enquanto os sites da Sony e da Universal não oferecem vídeos para os internautas, no Mundo Fox são disponibilizados trechos das séries transmitidas pelo canal, com uma única vantagem para o espectador do canal: são legendadas.

Será que os canais de televisão conseguirão se adaptar à esta nova realidade?