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logotipo-olimpiadas-rio-20161Antes dos brasileiros assistirem em 2016 as Olimpíadas do Rio de Janeiro, tem ainda os Jogos de Londres, daqui três anos. E a briga pelos direitos de transmissão dos mesmos começou cedo entre as vorazes Redes Globo e Record, que ofereceram valores absurdos pela exclusividade de ambos os eventos esportivos.

Em 2007, engajada no projeto de alavancar a audiência pelo esporte e de tirar as Olimpíadas de Londres da Globo a qualquer preço, a Record bancou 60 milhões de dólares, garantindo a transmissão exclusiva dos Jogos, que pela primeira vez não serão da Globo. Um fato histórico na TV brasileira e que beira o abuso do poder econômico, pois pelas Olimpíadas de Pequim em 2008, a Globo pagou bem menos: 12 milhões de dólares. Uma ignorância da Record!

Mas não para por aí a história. Com a confirmação dos Jogos de 2016 no Brasil, a disputa pela exclusividade dos direitos de transmissão se intensificou. A Record, mais uma vez, veio com ofertas bem acima da média para manter as Olimpíadas com a emissora. Porém, espertamente, a Globo trouxe a banda para a negociação, fazendo propostas conjuntas para garantir a transmissão nem que fosse em dupla. Para não perder a oportunidade, a Record chegou a oferecer 120 milhões de dólares, enquanto a Globo e a banda juntas somariam entre 70 e 100 milhões de dólares.

A decisão final do COI (Comitê Olímpico Internacional) sai ainda este ano. A expectativa é que as três emissoras transmitam os Jogos, sem exclusividade, até mesmo para que o COI tenha mais lucro nas negociações.

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Que as emissoras disputam a atenção dos telespectadores de maneira virulenta, qualquer pessoa com mais de dois neurônios é capaz de perceber. Globo, SBT, Record e Band usam e abusam dos programas popularescos e das fórmulas importadas para conquistar a parcela menos privilegiada (e mais numerosa) da população brasileira. Mas quando a guerra entre os canais chega aos noticiários, a disputa atinge níveis preocupantes. E foi isso que nós vimos na primeira quinzena de agosto deste ano: um festival de troca de acusações entre Globo e Record, dentro de espaços que deveriam servir apenas para informar. Quem perde com isso é o telespectador, que vê sua inteligência ser questionada de maneira descarada por jornalistas que, por medo de perder os empregos, são obrigados a produzir reportagens de cunho claramente ideológico. Imparcialidade? Este conceito é desconhecido nas redações das referidas emissoras.

Globo-Record

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Entenda o caso:

Tudo começou no dia 11 de agosto, quando o Ministério Público denunicou o bispo Edir Macedo e outros nove membros da Igreja Universal por lavagem de dinheiro oriundo de doações de fiéis. O Jornal Nacional daquela noite exibiu uma longa reportagem sobre o assunto, onde a ligação com a Rede Record foi ressaltada. A matéria teve uma duração de nove minutos, sendo que as denúncias foram apresentadas durante sete minutos, e a defesa de Edir Macedo usou os dois restante.

record(Captura de tela: blog Memórias Fracas)

Na mesma noite, a Rede Record tratou de se defender em seu telejornal noturno, onde o mesmo advogado também ocupou um espaço de dois minutos. No dia seguinte, o Jornal da Record exibiu uma longa reportagem falando sobre os “interesses escusos da família Marinho” e sobre como o crescimento da emissora incomodava a Vênus Platinada. Mas a resposta mais contundente da Record veio alguns dias depois. O programa Repórter Record exibido no domingo, dia 16/08, veiculou uma longa reportagem sobre a Rede Globo e suas supostas irregularidades. Segundo a matéria, o promotor que denunciou a Record já teria sido condenado por favorecer a Globo. Ele teria fornecido imagens de uma investigação com o traficante Fernandinho Beira-Mar para o Fantástico. Outros escândalos envolvendo a emissora carioca foram citados na reportagem, que além disso mostra como os evangélicos são retratados nas novelas globais, em uma clara tentativa de manipular a opinião dos fiéis que assistem à emissora.

Assista:


Mas a Record não parou por aí: comprou os direitos sobre o documentário “Muito além do Cidadão Kane”, exibido pela TV inglesa em 1993, que fala sobre o monopólio de Roberto Marinho na comunicação brasileira. O filme, que antes era restrito às faculdades de comunicação, serve como munição contra a emissora. Em contrapartida, a Rede Globo negocia um documentário francês que apresenta “os podres” da Igreja Universal.

E o povo, o que ganha com isso? Nada. O império da Globo continua de pé, a Rede Record continua angariando fiéis para a Igreja Universal, e a programação de ambas as emissoras continua uma porcaria.

“Na TV nada se cria, tudo se cópia”. A célebre frase foi consolidada pelo apresentador Chacrinha nos anos 80, e pode ser perfeitamente aplicada aos dias atuais na televisão brasileira. Para buscar a liderança de audiência no país e bater a Rede Globo, a Record apostou em copiar o chamado “Padrão Globo de Qualidade”.

Sua estratégia, no entanto, chegou ao extremo de reproduzir o modelo sem qualquer receio do rótulo de “cópia da Globo”.

A situação pode ser comprovada, por exemplo, aos domingos. A programação global pelas manhãs iniciava com o tradicional Esporte Espetacular e se encerrava com o programa jornalístico Fantástico. A Record, levando ao pé da letra a máxima de Chacrinha, apresentou aos telespectadores, pela manhã, o Esporte Fantástico e, à noite, o jornalístico Domingo Espetacular.

Como assim?

Além de fazer uma inversão dos nomes de dois dos principais e mais tradicionais programas da Globo aos domingos, a Record levou alguns nomes do jornalismo global para sua emissora.

Mylena Ceribelli se consolidou como repórter e apresentadora do Esporte Espetacular durante bons anos. Trocou de emissora, mas não de horário de trabalho, pois foi escalada pela comandar o quase homônimo da Record: Esporte Fantástico.

A troca de empresa de comunicação alterou seu salário, mas com certeza, não causou estranhamento no novo trabalho. O programa de Mylena na Record é a cópia do pretérito-mais-que-perfeito da Globo.

O caso se repete no Domingo Espetacular. Chegou como concorrente do show da vida da Globo, colocou no ar quadros semelhantes ao da rival – exceto pela parte de teledramaturgia – , e agregou telespectadores com reportagens mais completas e melhor produzidas que as do Fantástico, que por coincidência, já vinha caindo em audiência nos últimos anos.

O quadro do Domingo Espetacular, “Gêmeos da Pesada”, acompanha a rotina de dois irmãos com obesidade mórbida em busca de tratamento e perda peso. A luta dos rapazes comoveu o público, angariou audiência e irritou a Globo, pois é mais uma cópia que a Record fez das suas produções. O Fantástico, algum tempo, já colocava no ar quadros que seguiam o cotidiano de famílias e pessoas, mas não obteve o mesmo sucesso.

A cópia descarada, pura e simples continuará. Quem perde como sempre, é o telespectador, pois terá as opções totalmente idênticas e nos mesmos horários.

Observatório da Imprensa de 25 de agosto deste ano, pautado pela discussão vergonhosa entre Record e Globo, levantou a discussão do quão válido, ou sério, é o trabalho da imprensa que usa a religião como alicerce, que busca credibilidade por meio de comoção da fé. Com mediação do jornalista Alberto Dines, o programa chama de guerra santa o momento atual da imprensa brasileira e lembra que vivemos numa sociedade laica, ou seja, dissociada de religião.

Carlos Eduardo Lins da Silva – Ombudsman/ Folha de S. Paulo

Elvira Lobato repórter da Folha de S. Paulo

Roberto Livianu – Promotor de Justiça Criminal/SP

Roseli Fischmann – Cientista política/USP